Da estética do barro, memórias e sensações, por Regina Galvão

Ancestral, o barro remete à terra, à memória e dá conforto visual. Em peças diversas, desperta o desejo tátil e se alinha às propostas da arquitetura e do design contemporâneos que prezam pelos materiais naturais. Ao pesquisar a cartela de produtos da Eliane, encontrei duas sugestões de revestimento com esse conceito: Guache Argila, porcelanato para piso e paredes, com formato 1,20 x 1,20cm, e o Soho Argila, modelo retangular, 10 x 20 cm, que lembra tijolo. Ambos refletem “a essência da matéria, simbolizando pureza e simplicidade”, nas palavras da empresa. Fáceis de combinar, dialogam com diversas cores e padronagens.

Visto como uma conexão com a natureza e um resgate de tradições, o material, em sua diversa gama de cores, tem conquistado espaço nas casas urbanas. Na minha, ele se faz presente na mesa lateral, de tom avermelhado, criada pelo designer Giácomo Tomazi com artesãos catarinenses, em vasos para pacovás, costelas-de-adão, samambaias e buganvília, e nas muitas obras da minha coleção de mestres populares.

Dos povos originários aos artistas da nova geração, a matéria-prima se revela atemporal, ultrapassando barreiras de cultura, gênero, tempo e território. A goiana Sallisa Rosa, destaque na semana da Art Basel Miami 2023, realizada em dezembro, com a instalação “Tipografia da Memória”, composta por mais de 100 peças moldadas à mão com argila coletada e queimada à lenha a 80 graus C, interpreta o material, com base nos saberes de sua herança indígena: “A terra tem muitas propriedades: óticas, magnéticas, de temperatura, de energia (…) A terra é esse lugar de memória, guarda o registro de tudo o que aconteceu, das pessoas que passaram por ali, do que foi plantado, a terra é esse pó mágico que registra o tempo”.

Guache Argila EXT 120x120cm | Guache Pico Argila MT 45x120cm | Guache Gris MA 120x120cm | Projeto: Fgmf Arquitetos | Foto: Evelyn Muller
O barro serve também à nossa cultura popular, principalmente a do Nordeste, cuja expressão máxima é o Alto do Moura, no município de Caruaru, bairro onde viveu o pernambucano Mestre Vitalino (1909-1963). Seu talento e legado foram responsáveis por tornar o lugar no Maior Centro de Arte Figurativa das Américas, título concedido pela Unesco.

Bonecos de Barro, por Mestre Vitalino | Arte Popular
Da infância produzindo panelas, com a mãe, para ajudar no sustento da família, Vitalino passou a fazer esculturas com cenas do cotidiano do sertanejo: nascimento, trabalho, casamento e morte. Cada peça, uma história, contada aos clientes na tradicional feira de Caruaru. Considerado um dos maiores mestres da arte popular brasileira, merecedor do título Mestre do Barro, a arte de Vitalino ganhou relevância nacional com a 1ª Exposição de Cerâmica Pernambucana, em 1947, no Rio de Janeiro.

Guache Argila EXT 120x120cm | Guache Pico Argila MT 45x120cm | Guache Gris MA 120x120cm | Projeto: Fgmf Arquitetos | Foto: Evelyn Muller
Conquistou admiradores fiéis, como o paisagista, pintor e colecionador Abelardo Rodrigues (1908-1971), que formou uma extensa coleção de peças do artista, doadas posteriormente para o Museu do Barro de Caruaru, atualmente fechado para reforma. Parte de sua obra pertence também ao acervo permanente do Museu do Louvre, em Paris. Vitalino é o nordestino do agreste que, com o barro e sem sair de seu território, alçou voos altos pelo mundo.








