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Arquitetura|Cultura|Design|Eventos

Uma linguagem, o ofício desses verdadeiros artistas amazônicos.

6 min de leitura | admineliane
Uma linguagem, o ofício desses verdadeiros artistas amazônicos.

O Connectarch traz mais uma reportagem sobre a artesania brasileira. Desta vez, o destaque é o ofício dos abridores de letras, artistas que criaram uma tradição na região norte do país ao registrarem suas marcas em barcos, muros e fachadas. Conhecer a cultura brasileira não é tarefa das mais fáceis, visto a diversidade e as dimensões desta nação, mas é, certamente, enriquecedor e fascinante desbravar suas origens, seus povos, sua geografia. Ouvir relatos e, nem que seja por alguns minutos, adentrar nas memórias dessas pessoas que têm muita história para contar, é um privilégio. Embarque nesta história com a gente!


Atributo da região amazônica, a artesania dos abridores de letras é um ofício de poucos artistas que, em sua maioria, passa o saber de pai para filho. Assim são conhecidos aqueles que pintam nomes, dizeres e palavras nos barcos, muros e fachadas daquela região. Trata-se da criação de letras, hoje bastante coloridas, cheias de requintes e ornamentos, desenvolvidas por profissionais específicos em barcos, no início, e, agora, em fachadas de comércios e até em casas.


Objeto de estudo da designer paulista Fernanda Martins que, ao viajar para Belém, em 2004 – mudou-se para lá no mesmo ano –, se depara com a pintura dos barcos. A arte dos abridores de letras deu origem ao projeto Letras que Flutuam, que tem entre os objetivos, desde 2013, mapear os abridores de letras da Amazônia e, nas palavras de Fernanda, “dar visibilidade aos pintores e valorizar seu ofício por meio de diferentes ações, tais como documentários, oficinas de pintura e palestras. Também procuramos entrar em editais para possibilitar que eles tenham mais oportunidades de trabalho”, diz Fernanda ao contar que tudo começou quando, ao se mudar para a cidade, avistou a primeira letra logo na chegada. “Ali, percebi algo único e iniciei uma pesquisa pessoal que virou uma monografia de especialização e depois o projeto Letras que Flutuam.”


 



Foto de Fernanda Martins


 


Aperfeiçoando…


Não se sabe ao certo o início dessa arte, como conta Fernanda. “Sabemos que em meados da década de 1930 iniciou-se a obrigação de identificação dos barcos pela Capitania dos Portos. Os depoimentos dos pintores mais antigos indicam que de início pintava-se letras simples em preto. Depois, as cores começaram a aparecer. Muitos deles citam cursos por correspondência do Instituto Universal Brasileiro, de Publicidade e Propaganda, onde tiveram contato com catálogos de tipos de letras, que contêm modelos de impressão. Lá tiveram contato com as formas decorativas e começaram a copiar. Depois, cada pintor que avistava um barco com uma letra decorada colorida queria fazer uma mais bonita em seu próximo serviço. Desta forma, desenvolveu-se o que chamamos de Letra Decorativa Amazônica.”


 



Foto de Fernanda Martins


 


A arte é bastante conhecida nas regiões de Belém, Barcarena, Abaetetuba, Igarapé-Miri, Icoaraci, Soure, Salvaterra, São Sebastião da Boa Vista, Curralinho, Ponta de Pedras e Breves. Contudo, vale ressaltar que as letras desenvolvidas pelos profissionais abridores de letras trazem marcas e cores específicas que podem identificar as regiões dos artistas que as criaram, explica Fernanda. “Há características que pertencem a cada município. Podemos identificar pelas cores que usam ou pelo estilo de letra. Soure tem um formato de letra bem específico e Igarapé-Miri utiliza sempre laranja, por exemplo.”


Majoritariamente desenvolvido por homens – “há relatos de mulheres, mas poucas”, esclarece Fernanda – abrir letras é um ofício que dá muito orgulho para o artesão Mario Luiz Leão Gaia, mais conhecido como Marinho, um abridor de letras da região de Barcarena, no Pará. “Ser abridor de letras é ser um grande profissional, um grande artista. É transformar uma simples letra em um artigo de decoração”, celebra. O artista de 44 anos conta que “é muito bacana ser reconhecido e elogiado” pelo trabalho que se faz. Abridor de letras desde 1997, ele, que por curiosidade aprendeu o ofício, acredita que recebeu o dom divino dessa arte. “Sempre admirei outros artistas e convivi muito com alguns. Fazia questão de visitá-los, desse modo, seria mais fácil aprender. Comecei trabalhando como ajudante, com um amigo da região, o senhor Manuel, o Manduca, e logo passei a trabalhar, a ser um profissional da área”, conta Marinho.


Por outro lado, Waldemir Caravelas Furtado, 54 anos, conta que teve incentivo da família para ingressar na arte de abrir letras. “Desde pequeno fui incentivado pelos meus pais, principalmente por minha mãe. Ela viu alguns traços em desenhos nos trabalhos de escola, e passou a comprar lápis-cera, e a partir daí também me dediquei”, explica Waldemir que, assim como Marinho, credita sua habilidade a um dom. “Nunca estudei, não tive professores para me tornar um letrista, por isso acredito que tive um dom e eu apenas o aprimorei.” Com 44 anos de profissão, “comecei aos 10 anos de idade e ainda me lembro da primeira pintura que fiz, que considero oficial, pois já era um trabalho remunerado. Foi em uma embarcação e ainda hoje me lembro da escrita: ‘Riso do Mar’”, rememora o Waldemir. Conhecido como artista publicitário na região onde vive, também em Barcarena, hoje ele assina sua arte em residências, igrejas, aplicando técnicas específicas que cada uma delas requer.


Manoel Messias Cravo, outro abridor de letras, conta que o primeiro contato com o ofício aconteceu junto ao pai, que era pintor, e foi com quem aprendeu, quando tinha aproximadamente 17 anos. “Meu pai foi meu professor. Era um profissional muito competente e, naquela época, não tínhamos muitos barcos, mas os que surgiam, a gente pintava.” Hoje, aos 68 anos, afastado da arte de abrir letras em barcos, Manoel continua com a profissão, deixando seus traços em outras frentes como placas e faixas, mas, para ele, é uma honra ter aprendido a profissão com o pai e poder viver de sua arte até hoje.


 



Foto de Samia Batista



Letras que Flutuam


O papel do projeto Letras que Flutuam vai além de fomentar e preservar a cultura dessa arte. O projeto conectou os artistas dessas diferentes e distantes áreas, transformando o saber em algo coletivo, relata Fernanda. “Os pintores nem se conheciam fora de suas áreas. É preciso lembrar que os municípios, em sua maioria, se comunicam apenas por barco. De Belém a Breves são seis horas de barco. A comunicação é difícil, complicada, demorada. O Letras que Flutuam visita os municípios, procura os abridores de letras e os entrevista. Dessa forma, passam a participar das ações do projeto. No momento, três deles irão a Belém para pintar uma sala sobre os seus trabalhos em uma exposição. Hoje temos um grupo de WhatsApp que permite a troca de informações entre eles. Nós procuramos sensibilizar o poder público local para que as secretarias de cultura, de educação, também conheçam e valorizem esse saber e estimulem sua continuidade”, finaliza Fernanda.


O Connectarch esteve na Amazônia, no último mês de maio, juntamente com um grupo de arquitetos e designers de interiores convidados. Uma experiência transformadora que você pode conferir um pouco do que aconteceu por lá no primeiro episódio do Connectarch Cast com Marko Brajovic:



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