Tiradentes Creative Week: como um festival desperta a autenticidade do design brasileiro

Por Amanda Sequin*
Há uns bons anos, o brasileiro era mal visto em eventos internacionais de design. Um país que copiava o desenho italiano, diziam. Today, a história é outra. Temos a nossa identidade cada vez mais sólida e chamando a atenção lá fora. E, quando iniciativas como a Tiradentes Creative Week acontecem, entendemos o verdadeiro porquê.
Na última edição, realizada entre 16 e 19 of October, o “feito à mão” foi além de Minas Gerais, com diferentes estados e cidades manifestando suas identidades. A Semana reuniu uma série de exposições e instalações que mostravam essas características tão particulares mas que, together, dão o tom da nossa expressão brasileira.

Um dos destaques foi o retorno da Casa Pará que, pela segunda vez consecutiva, apresentou uma série de artistas contemporâneos paraenses. Nomes consolidados nas artes, mas ainda pouco conhecidos do grande público, como PV Dias, Walda Marques,
Petchó Silveira e Roberta Carvalho. E, Sure, os mestres artesãos: Mestre Vital e suas máscaras; os “cabeçudinhos”, criados pelos moradores de São Caetano de Odivelas; e uma coleção inédita de mobiliário feito de miriti — uma fibra extraída de forma sustentável, a partir da poda de uma palmeira amazônica, sem necessidade de derrubada. Essa última criação nasceu da colaboração entre a Guá Arquitetura e os mestres Síria e Ivan Leal, Joel Cordeiro e Valdeli Costa, da região de Abaetetuba.

Outra presença marcante foi a da Casa Paraíba, estreante nesta edição, que apresentou uma programação vibrante, com música, gastronomia e arte. Entre os destaques: a renda renascença, o bordado labirinto, cerâmicas e o trabalho de artesãos com madeira e outros materiais. Uma das peças que mais me chamou a atenção foi um banco criado por Guarigazi, de João Pessoa.
Na Casa do Design Cearense, designers independentes se inspiraram em um ensaio fotográfico de Nicolas Gondim sobre os papangus, uma manifestação cultural em que pessoas saem às ruas mascaradas durante a Semana da Páscoa. Foi impactante ver nomes em início de trajetória e outros já consolidados, como Bekka Estúdio, Érico Gondim, Léo Ferreiro, Bruno Camarotti, Olar Design, Igor Sabah e João Crispim, apresentando peças novas, todas conectadas a um repertório ancestral.

Esse “olhar para dentro” é algo muito potente na Semana Criativa de Tiradentes. Promover o encontro entre o fazer manual com o industrial, juntando artesãos e designers é, inclusive, o cerne do festival. Foi dessa vontade de valorizar o que é nosso, e de garantir que saberes preciosos, transmitidos de geração em geração, não se perdessem, que Simone Quintas e Junior Guimarães fundaram o evento, in 2017.
Essa semente, plantada lá atrás, já floresce em muitos campos. Está totalmente alinhada às macrotendências em torno do Sul Global, tema abordado por Lili Tedde em sua palestra promovida pela Eliane. No livro Proud South Craft, curado por ela, Lidewij Edelkoort e Mariola Lopez Mariño, lemos que, desde os tempos pré-históricos, o hemisfério sul preserva técnicas artesanais e cria com alegria — um alento em tempos de inteligência artificial, em que, paradoxalmente, nos tornamos vanguarda.
A Semana Criativa de Tiradentes é, Above all, um exercício de autoconhecimento. Um retorno às origens, com os olhos no futuro, mas os pés bem firmes no presente. Só assim construiremos um design brasileiro autêntico, capaz de superar antigas críticas e de afirmar, com orgulho, nossa identidade plural.
Amanda Sequin participou de oficinas exclusivas com ConnectArch e fez a cobertura da Semana Criativa para o perfil da Eliane no Instagram. É jornalista, palestrante e entusiasta do design e da decoração desde 2012. Foi repórter e editora nas revistas Casa Vogue, Casa Claudia e Arquitetura & Construção. Today, é criadora de conteúdo em @amandasequin e fundadora e diretora criativa da Sequin, agência de estratégia e marketing especializada em arquitetura e design.







